SAIBA MAIS SOBRE ADOÇÃO

POR QUE ADOTAR?

Dr. Sávio Bittencourt

“Muitas pessoas se perguntam para que adotar? Essa palavra tão forte para nós que vivemos em instituição, e, tão fraca para quem não mora. A adoção nada mais é do que uma forma das pessoas mostrarem o que sentem por nós crianças, carinho, amor do qual precisamos tanto”.

Caroline da Motta Silva – Estudante, institucionalizada em abrigo

 

Há quem cogite longinquamente a possibilidade de adotar uma criança, mas esbarra em contra-indicações socialmente difundidas, oriundas de um profundo preconceito que permeia o tema. As dúvidas que surgem nem sempre são teoricamente complicadas, mas antes passam por pré-concepções tão batidas em nossa vivência cotidiana, por nossos familiares, amigos e pela própria mídia. É a cultura do “filho de criação”, alguém acolhido materialmente por uma família, mas que não ostenta todos os requisitos inerentes a um filho de verdade, não se mistura no carinho integral que os membros da família se concedem mutuamente.

 

Deste vício inicial surgem muitas incompreensões que vão sendo tomadas como verdades eternas, sabedoria ancestral, que seguem a lógica falsa da prudência, apontando seu dedo torto para problemas inexistentes. São miragens míopes, que os moribundos do deserto da falta de afetividade pensam ser reais. Como os sedentos e esfomeados na areia escaldante, as pessoas que estão privadas de conviver com o amor pleno têm também delírios: enxergam oásis inexistente de vidas absolutamente seguras, longe de qualquer risco ou improviso. E com a visão entorpecida por esta ingênua pretensão, privam-se do melhor da vida e continuam sua viagem trôpega pelo deserto do afeto.

 

O filho adotivo é tão amado como o biológico? É essa a primeira dúvida que surge quando alguém pensa em adotar. Não se deve pensar que é crime ter tal insegurança, já que ela faz parte de nosso ideário social há décadas. Crime é não superá-la, pelo espírito de amor revolucionário que existe em potencial em cada um de nós. Amor divino, que não se submete a lógicas egocêntricas e a determinismos cafonas, fora de época.

 

O filho adotivo é uma dádiva: um ser que o pai adotivo não poderia nunca ter gerado, por advir biologicamente de outros cromossomos, mas que permite que ele destine a jazida de afeto que estava ociosa em seu peito. Na verdade só os filhos adotivos são amados. Mesmo os filhos biológicos são adotados por seus pais biológicos, quando há amor e cuidado. O Psicólogo Luiz Schettini Filho costuma dizer que todo filho é biológico e adotivo: biológico porque é o único meio de se vir ao mundo e adotivo porque precisa ser amado, amparado e criado. Assim, para crescer com segurança emocional todo ser humano precisa ser adotado. Daí inexistir nenhuma distinção entre a filiação biológica e adotiva, em relação ao amor que se sente. O amor é adotivo. Se há amor, é caso de adoção, mesmo que o filho tenha sido gerado pelo pai.

 

Podemos, então, esquecer completamente o mito da filiação biológica como passaporte garantido para uma relação amorosa entre pais e filhos. Os abrigos abarrotados de filhos biológicos que não foram adotados por seus genitores são um testemunho trágico de que ter sido gerado por alguém não importa necessariamente na existência de amor. Os adolescentes de classe média, andando de moto e usando drogas, largados nas cidades por pais desleixados também demonstram o mesmo.

 

Pois então podemos ser livres para amar o diferente e celebrar os encontros de alma. Não precisamos imitar o que a natureza eventualmente negou. Pode o branco amar o negro e vice-versa, na qualidade ímpar de pai e filho, fazendo das famílias uma dádiva da brasilidade, famílias coloridas e amorosas, que escolheram o amor como elemento de liga. Quem ama adota.

 

Retirado do livro “A Nova Lei de Adoção”, 2010, Sávio Bittencourt

Dr. Sávio é Promotor de Justiça do Ministério Público do Rio, Graduado em Direito pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em História Social pela Univ. Severino Sombra, Doutor em Geografia pela Universidade Federal do RJ, Professor da Fundação Getúlio Vargas, da PUC/RJ e da Escola da Magistratura do Estado do RJ e Articulista do Jornal O Estado. Tem cinco filhos, três biológicos, todos adotivos.

“Adoption (adotar) significa escolher. Não é escolher um filho, é escolher a atitude de adotar e exercitar a maternidade e a paternidade afetiva de forma consciente e responsável”

                           -- Hália Pauliv (ENAPA Recife 2008)

 

É fundamental dizer que a Adoção não é filantropia, não é assistencialismo, não é caridade, adoção não é ajudar alguém, não é tentar fazer o bem ao próximo, não é 'tirar uma criança da rua'. Adoção é escolha, é decisão, é abrir a sua vida para o outro, é se entregar, "é ser capaz de gerar, gestar e parir um ser moral e espiritualmente" (Clélia Zito Cézar), é amar além do vínculo biológico, além dos seus próprios genes. Adoção é uma linda maneira de se constituir família.

ENCONTROS DO AleGrAA

  • 2012

    Fevereiro:

    Planejamento Anual do AleGrAA – 25/02

    Depoimentos diversos

    Março:

    A gestação afetiva – 31/03

    Depoimentos de membros

    Abril:

    Pic Nic da Adoção – 29/04

    Parque da Cidade

    Maio:

    1º Passeio Ciclístico e Caminhada em prol da Adoção de SJC

    Dia 27 de maio – 8h30 – Parque Santos Dumont

    Junho:

    2º Ciclo de Palestras sobre ADOÇÃO de SJC – 02/06

    Dr. Sávio Bittencourt – Promotor de Justiça MP RJ

    Dra. Bárbara Toledo - Presidente ANGAAD (Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção)

    Dr. Alexandre Gonzaga – Juiz da Infância e Juventude de Jaboticabal

    2º Festival de Caldinhos – 30/06

    Palestra “Devolução e Desistência: até quando?”

    Prof. Milton Douglas de Oliveira – Vara da Infância de SJC

  • 2011

    Fevereiro:

    DVD: A importância dos Grupos de Apoio no Brasil – 26/02

    Dr. Sávio Bittencourt – Promotor da Infância e Juventude (RJ), pai adotivo, ex-Presidente ANGAAD (Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção)

    Março:

    Adoção de Crianças Especiais – 26/03

    Carla Penteado – mãe adotiva, Presidente ATE (Adoção Tardia e Especial) – Joinville, SC (via Skype)

    Lúcia Eutímia – mãe adotiva

    Abril:

    Confraternização de Aniversário do AleGrAA – 30/04

    Pic Nic no Parque da Cidade

    Maio:

    I Ciclo de Palestras sobre ADOÇÃO de São José dos Campos

    Câmara Municipal de SJC – 28/05

    Junho:

    1º Festival de Caldinho

    Resumo do XVI Encontro Nacional de Apoio à Adoção – Curitiba, PR – 25/06

    Heloísa Bomjardim – mãe adotiva, coordenadora do AleGrAA

    Julho:

    Maternidade / Paternidade Adotiva e Biológica – 30/07

    Alexandra e João Rangel – membros do AleGrAA

    Agosto:

    Roda de Pais e Futuros Pais Adotivos – 27/08

    Jefferson Bomjardim – coordenador do AleGrAA

    Setembro:

    Adoção Tardia: por que não? – 24/09

    Stéphanie Di Martino Sabino – Psicóloga

    Outubro:

    O AleGrAA promoveu uma festa para as crianças da Casa de Assis – 29/10

    com a participação de palhaços, mágica, brinquedos, docinhos, salgadinhos e presentes.

    Novembro:

    Os nós e os laços na construção da família adotiva – 26/11

    Sônia Maria de Oliveira – Psicóloga e Psicoterapeuta de família

  • 2010

    Abril:

    A importância dos Grupos de Apoio à Adoção – 08/04

    Paulo Silvano Cardoso – Pai adotivo

    Maio:

    O Cadastro Nacional de Adoção – 13/05

    Setor Técnico da Vara da Infância de São José dos Campos

    Junho:

    Vídeo da Campanha Mude um Destino – 24/06

    Agência dos Magistrados Brasileiros – AMB

    Julho:

    Depoimento Adoção Tardia, Múltipla, Inter-Racial e Monoparental – 29/07

    Thereza Lima – mãe adotiva e educadora

    Agosto:

    A importância de brincar com seu filho – 26/08

    Pllug Eventos – parceira do GAA em 2010 (recreação)

    Setembro:

    Processo de Habilitação: dúvidas e sugestões – 30/09

    Setor Técnico da Vara da Infância de São José dos Campos

    Outubro:

    Pré-Natal da Adoção – 28/10

    Maria de Fátima da Silva – mãe adotiva e educadora

    Novembro/Dezembro:

    Confraternização das Famílias Adotivas – 04/12

    Pic Nic no Parque da Cidade

POR QUE EU TE AMO?

Sávio Bittencourt

Sávio Bittencourt e Maria Fernanda

"Ser radical é agarrar as coisas pela raiz, e a raiz para o homem é o próprio homem.” --Karl Marx - Filósofo

Quando te vi, pequenina, enrolada em panos, não pensei em nada. Meu mundo ficou ficou silente. Sem buzinas de automóveis, sem prazos de trabalhos a cumprir, sem aqueles pensamentos insistentes, invasores, que assolam a mente das pessoas. Nada. Minha vidade, minhas economias, minha carreira, minha “qualquer outra coisa”, tudo se calou em silêncio arrebatador. Todas as pressões das coisas urgentes e importantes, as atitudes imperiosas, as conquistas sonhadas, nada me surgiu... foi como se tudo isso nunca tivesse existido.

 

Não havia nada ali naquele momento além de você, mulata, pequena, diante dos meus olhos, me provocando o maior silêncio já ouvido por um mortal. Nosso primeiro abraço foi comprometedor: cerquei você com meus braços, erguendo-os com a intenção das muralhas protetoras de uma cidade medieval, te enlaçando por um instante de forma tão intensa que seria possível a qualquer laboratório identificar que nosso DNA era o mesmo.

Se não o DNA do sangue, com certeza o DNA da alma. A qualquer um era possível ver que aquele homem com cara de português e aquela menina africana eram parte de um grande plano genial e generoso do Criador: eram pai e filha. É um afeto instantâneo e imenso, incomensurável, que faz e desfaz do nosso antigo ser.

Assim, calando minhas fraquezas e desfazendo a correria da vida, você me apareceu. Pronto. Como manter uma coerência com aqueles grandes objetivos profissionais? Como continuar obedecendo à lógica daquela ambição desmedida? Todos os compromissos e valores já construídos ruíram sob uma nova modalidade de sentimento, um sentimento renovador e carismático, que me arrebatou de forma acachapante. Eu não era mais a mesma pessoa de segundos atrás. Estava em paz e feliz.

 

Talvez as pessoas não entendam esse meu amor por você. Não se pode atribuir algo tão puro às práticas humanas sempre matizadas pelos interesses mundanos. Nem mesmo às boas ações dos homens, bafejadas pelo altruísmo caridoso. Nada disso nos pertence. Aliás, nós dois sabemos que amor não se explica. Amor se sente. Não há caridade que justifique o amor, mas é o amor que a justifica. E aceito, por amor e caridade, tanto faz, as beijocas que você guarda para mim no fim do dia, como prêmio maior pelas lutas que empreendi.

 

Quisera eu, querida, que todas as pessoas pudessem saborear esse sentimento: amar alguém que não foi gerado por mim, que não me perpetua com traços físicos semelhantes, que não tem o “sangue do meu sangue”, e que permite que a jazida de afeto que trago em meu peito seja explorada e canalizada para um bem-querer. Sim, sentir amor por um filho adotivo me permite realizar algo maravilhoso: alguém que se torna fundamental em minha vida, com quem construo uma relação de amor no cotidiano, este ser especial que eu nunca teria tido a capacidade biológica de gerar!

 

Enfim, é isto: eu jamais teria gerado você, meu anjo. Se dependesse da minha essência animal, limitada e finita, que vai virar pó, eu nunca teria me transformado em seu pai. O que me habilitou para esta missão foi minha crença profunda e inabalável de que o amor de Deus não tem limites e não se submete a tipologias, não se prende com amarras sociais ou raciais. É por isso que te amo, além, obviamente, destes olhos negros e amendoados, que me sorriem, um pouquinho antes de dormir.

 

Retirado do livro “A Nova Lei de Adoção”, 2010, Sávio Bittencourt

Dr. Sávio é Promotor de Justiça do Ministério Público do Rio, Graduado em Direito pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em História Social pela Univ. Severino Sombra, Doutor em Geografia pela Universidade Federal do RJ, Professor da Fundação Getúlio Vargas, da PUC/RJ e da Escola da Magistratura do Estado do RJ e Articulista do Jornal O Estado. Tem cinco filhos, três biológicos, todos adotivos.

Reunião todo último sábado do mês.

As reuniões acontecem todo último sábado do mês (exceção dos meses de jan, jul e dez), às 16h30, na Av. Cidade Jardim, 1930 - Jd. Satélite - São José dos Campos, SP.

VOCÊ É BEM VINDO!